Vamos falar sobre beijos

Tenho que concordar com Bukowski: Beijar é mais íntimo que trepar. Sempre achei a foda um ato muito individual. Estão ali, pelo menos duas pessoas trepando, cada qual com seu ritmo, sentindo tudo  que fazem juntos de maneiras diferentes. Quando gozam, cada qual tem seu prazer. Você não pode fazer nada além de presenciar a fisionomia, o contorcer do corpo e os sons que deixam a boca. Não pode compartilhar do espasmo, da moleza do corpo, do arrepio e nada ali te conta muito além do evidente.

Não importa quão estranha é uma foda, o quão ruim o outro é em lhe agradar. Dá-se um jeito de alguém sentir prazer em algum momento. Um beijo estranho pode ser repetido quantas vezes quiser e continuará estranho. Não existe “dar um jeito” pra ficar bom. É aquilo. Os lábios parecem não seguir o mesmo compasso, a boca gira para o lado de um jeito engraçado, tem baba de mais, língua de menos.

Conheci um cara que dizia que o beijo tem que ter encaixe. Ele estava certo. O beijo pode não ser de um todo ruim, mas é como se faltasse algo que você não sabe definir com precisão o que diabos seria. É como se teu corpo te alertasse que com aquela boca não vai rolar nada de mais. O relacionamento fica fadado a meia-dúzia de beijos e umas trepadas, se tiver qualquer sorte – talvez mais trepadas que beijos, varia da falta de compromisso de cada um.

Qualquer tipo médio ocidentalizado e sem grandes restrições de qualquer natureza tem a chance de beijar uma grande soma de pessoas na vida. A loteria é encontrar um beijo que encaixe. Existe toda aquela verídica conversinha de que um beijo de bosta pra mim pode ser um puta tesão para alguém. Mas a real é que você vai achar mais beijos que faltam sei-lá-o-que do que algum que te satisfaça, te encha de tesão e seja mais fluído do que se você tivesse dando uns amassos numa cópia sua. Ciência? Empirismo sem finalidade acadêmica.

Os lábios se abrem, as línguas se tocam e o beijo acontece. Não é uma dança exata, mas é bom e subitamente você realiza que não falta nada. Pensa nos outros beijos. Eram bons, só que não era o que você queria. Esse é bom e é o que você queria, mesmo sem fazer ideia de que precisava. Não que seja manjado. Beijar é uma dança que ninguém decora os passos, apenas acontece. Saliva, dentes, língua, toque: tudo se mistura, tudo te dá tesão, tudo é surpreendentemente natural, gostoso. Pode ser cheio de carinho. Pode ser cheio de desejo. Pode te falar de tristezas, de como a vida tem sido difícil. Pode simplesmente aquietar um turbilhão de inseguranças ou acendê-las e dizer que é aquele o beijo e são aqueles os lábios que você quer.

Não é meramente trepar. É a intimidade de compartilhar todo teu sentimento com alguém com o toque da sua boca.