Vamos falar sobre beijos

Tenho que concordar com Bukowski: Beijar é mais íntimo que trepar. Sempre achei a foda um ato muito individual. Estão ali, pelo menos duas pessoas trepando, cada qual com seu ritmo, sentindo tudo  que fazem juntos de maneiras diferentes. Quando gozam, cada qual tem seu prazer. Você não pode fazer nada além de presenciar a fisionomia, o contorcer do corpo e os sons que deixam a boca. Não pode compartilhar do espasmo, da moleza do corpo, do arrepio e nada ali te conta muito além do evidente.

Não importa quão estranha é uma foda, o quão ruim o outro é em lhe agradar. Dá-se um jeito de alguém sentir prazer em algum momento. Um beijo estranho pode ser repetido quantas vezes quiser e continuará estranho. Não existe “dar um jeito” pra ficar bom. É aquilo. Os lábios parecem não seguir o mesmo compasso, a boca gira para o lado de um jeito engraçado, tem baba de mais, língua de menos.

Conheci um cara que dizia que o beijo tem que ter encaixe. Ele estava certo. O beijo pode não ser de um todo ruim, mas é como se faltasse algo que você não sabe definir com precisão o que diabos seria. É como se teu corpo te alertasse que com aquela boca não vai rolar nada de mais. O relacionamento fica fadado a meia-dúzia de beijos e umas trepadas, se tiver qualquer sorte – talvez mais trepadas que beijos, varia da falta de compromisso de cada um.

O beijo de Gustav Klimt

Qualquer tipo médio ocidentalizado e sem grandes restrições de qualquer natureza tem a chance de beijar uma grande soma de pessoas na vida. A loteria é encontrar um beijo que encaixe. Existe toda aquela verídica conversinha de que um beijo de bosta pra mim pode ser um puta tesão para alguém. Mas a real é que você vai achar mais beijos que faltam sei-lá-o-que do que algum que te satisfaça, te encha de tesão e seja mais fluído do que se você tivesse dando uns amassos numa cópia sua. Ciência? Empirismo sem finalidade acadêmica.

Os lábios se abrem, as línguas se tocam e o beijo acontece. Não é uma dança exata, mas é bom e subitamente você realiza que não falta nada. Pensa nos outros beijos. Eram bons, só que não era o que você queria. Esse é bom e é o que você queria, mesmo sem fazer ideia de que precisava. Não que seja manjado. Beijar é uma dança que ninguém decora os passos, apenas acontece. Saliva, dentes, língua, toque: tudo se mistura, tudo te dá tesão, tudo é surpreendentemente natural, gostoso. Pode ser cheio de carinho. Pode ser cheio de desejo. Pode te falar de tristezas, de como a vida tem sido difícil. Pode simplesmente aquietar um turbilhão de inseguranças ou acendê-las e dizer que é aquele o beijo e são aqueles os lábios que você quer.

Não é meramente trepar. É a intimidade de compartilhar todo teu sentimento com alguém com o toque da sua boca.

It ain’t me, babe!

Demorei muito tempo tentando fazer esse blog ficar do jeito que um blog deve ser. Fotos bonitas. Layout caro comprado diretamente de uma designer digital alemã. Página para contato. Dicas de como cuidar de plantas. Uma porrada de coisa para as pessoas pegarem para usar de graça. É como fazer sua casa parecer uma daquelas fotos de revista de decoração, impecável, e depois perceber que odeia tudo aquilo e realizar que nunca conseguirá viver num lugar assim.

Escrevo bem pra caralho. Talvez isso seja a única coisa que sei fazer com alguma competência na vida. Passei boa parte da minha vida útil nos últimos dez anos fazendo exatamente isso: escrevendo. Então lá vou com a responsabilidade de tocar um blog, de fazê-lo crescer e tudo mais. Me debruço sobre algo que o público gostaria de ler por aqui. Escrevo sobre roupas. Legal. Sobre feminismo. Poxa, muito bom, vários comentários, quase todos iguais, mas já é alguma coisa. Estão me pagando para escrever sobre meia dúzia de móveis. Okay, lindo! Acho que estou chegando lá. Opa, querem me pagar de novo… E lá sigo eu escrevendo e deletando e escrevendo novamente. Tudo uma bosta.

Vamos lá, dar uma informação decente, fazer uma pesquisa, escrever com meia dúzia de palavras bobas e memes para parecer legal, pra deixar a coisa mais pessoal, mesmo eu não soando eu mesma quando digo essas coisas. Tudo tranquilo. Foco no público, mas tá tudo uma bosta.

Pra que merda alguém vai querer saber do meu home office? Pra quê eu tenho que escrever essas coisas informativas? Tenho que dar conteúdo para o meu público para poder receber sei lá o que, disseram. Fico entediada. Por que diabos alguém está se dando ao trabalho de comentar nisso? Bem, então devo estar fazendo algo certo… Continuo entediada. Não consigo mais escrever. Desisto de tentar publicar qualquer coisa.

Essa não sou eu. Isso não me dá tesão.

Estou a cinco anos com esse blog. Três anos de pura malemolência, postando quando a vontade batia, quando os relacionamentos começavam a degringolar e meus dedos coçavam para publicar minha solidão. Os outros dois voltados para um público que, em parte, consome sem muito problema qualquer conteúdo morno e sem coração, que se surpreende facilmente com qualquer criticidade, pouco opinando ou debatendo (nem que seja para me mandar à merda).

Aprendi dessa maneira que o público é uma bosta. Vai aplaudir o post sobre uma futilidade qualquer, esperando que você vá lá no blog dele fazer o mesmo. Tem pouca gente com critério lendo por ai. Posso dizer com orgulho que um bom punhado das visitas constantes por aqui eram de pessoas assim e que faziam um puta esforço pra ler as bobagens que estava publicando. Critério não é pra todo mundo. É possível achar gente que goste de qualquer coisa, do vômito de palavras que alguém despejou numa página dessas. Qualquer coisa não é pra mim.

Uma força maior gritava na minha cabeça todas as vezes que tentava deixar esse lugar mais apropriado, mais parecido com os outros blogs. “NÃO FAÇA ISSO, SUA MULA IDIOTA”, a voz dizia estridente. Achava que estava me sabotando de um futuro magnifico como blogueira bem sucedida e amada pelo meu público. Bem, na verdade, a voz era um instinto composto de pura loucura que estava tentando me proteger, me fazer parar de ser algo que não sou. Por alguma razão determinista e confusa, existe uma noção forte de que seguir o bando, o caminho óbvio para aquele montão de gente é o que devo fazer.

O caminho certo era ser uma intelectual. Afinal de contas, nunca tive nenhuma qualidade notável que me fizesse ganhar qualquer destaque além do bom uso que fazia da minha cuca. Ou seja, a única coisa que era boa era em estudar. Lá, com 17 anos decidi que faria relações internacionais na USP. Seria diplomata. Na época era muito mística e tinha a crença que os anjos e as chamas me guiavam naturalmente para meu destino. Não passei na USP.

Já flertava com história, mas o lance foi meio desesperado. Colocava um peso horrível em entrar na faculdade. Não conseguia emprego nem de chapeira no McDonalds. Era isso, só me restava estudar e parasitar meus pais financeira e emocionalmente. Passei cinco anos na faculdade de história, o primeiro ainda crendo no lance do fado. Os outros apenas desesperada, me sentindo um peixe fora d’água que se mesclava muito bem naquilo tudo.

Li pra caralho. Estudei feito louca. Virei noites e mais noites fazendo trabalhos, fichando pras provas. Trabalhei em arquivo. Dei aula. Fiz pesquisa. Fui premiada. Sou uma puta historiadora. Poderia estar fazendo mestrado agora, tudo certinho dentro da linearidade da vida que todos (inclusive eu) pensaram pra mim.

Mas isso me faz feliz?

Não.

Cinco anos chorando por qualquer merda, com aquela angústia queimando dentro de mim. Andava mais irritada que o demônio no último ano da faculdade, sempre doente por qualquer bobagem e não chutava que estava infeliz. Seguia o meu caminho, gostava da faculdade, tudo estava nos conformes comigo ralando pra ser boa no que escolhi.

Entrava em pânico, porém, só de pensar no que seria de mim quando terminasse a faculdade. A resposta esteve na minha frente desde sempre, mas nunca quis olhá-la nos olhos… Não queria trabalhar com aquilo de dar aula, pesquisar, limpar livros. Era lindo estudar, puro tesão ficar horas lendo. Mas ficava triste com a perspectiva de encarar uma sala cheia de crianças agitadas num sistema de educação falido, um monte de fungos e oxis ou todos aqueles intelectuais saturados deles mesmos punhetando seu conhecimento em palestras sonolentas prum auditório medíocre. Só queria correr para debaixo das cobertas, paralisar o tempo e tomar coragem pra acertar as arestas da minha vida.

É difícil saber alguma coisa ao certo com a vida acontecendo e o mar de confusão crescendo na cabeça. Tristezas de várias partes da vida, muita solidão, horas de transporte público e falta de grana me forçaram a pensar e encarar meia dúzias de coisas que já sabia. Não era nada daquilo que eu queria da vida. Eu não era nada daquela porra toda.

A descoberta venho mansa e a mudança também. Respirei. Viajei. Amarguei. Sangrei. Mais de um ano se passou e estou aqui. Sei quem eu sou, sei o que eu quero, sei o que me faz feliz. Ninguém entendeu quando mudei de profissão, já que parecia tão bem-sucedida dentro dos padrões intelectuais da academia. Não espero que alguém entenda que eu tenha deletado tudo por aqui e escrito esse puta textão. Tem gente que chama de conto, outros de crônica, sei-lá-o-que… Chame ai do que quiser. De hoje até um momento futuro indefinido esse blog vai ser isso: um aglomerado de textos repletos de palavrões e coisas dessa minha vida.

Isso sou eu? Me faz feliz? Ora, com certeza!

E você ai, faça o favor de trazer mais café se voltar por aqui. Tenho história pra caralho pra contar. E vê se me traz açúcar também, que meu estômago não é de ferro!