Tudo bem? Tudo bem!

Ninguém se importa com a minha vida. Essa noção clara, dura e constante me moldou em uma jovem mulher amarga, sozinha e desconfiada.

Quase paradoxalmente, tenho um interesse profundo por aqueles que me cercam intimamente. Enveredo-me por perguntas dentro assuntos banais, beirando o método socrático, só que sem a pretenção de ensinar qualquer coisa. Gosto de mergulhar nas pessoas, de ver seus medos, saber dos seus demônios.

Quem quer mergulhar em si, ver os próprios medos, saber dos próprios demônios?

Quem quer mostrá-los a alguém?

Deixar que alguém o conheça é revelar-se da maneira que bem deseja, escondendo o que acha inapropriado para si e para os outros. É um jogo mútuo de conquista. Todos querem se mostrar de um modo minimamente interessante, querem sentir que encantam, querem ser encantados.

Nesse jogo o vencedor é quem se mostra menos interessado. Para tal, revela-se um para o outro o mais banal que existe em suas almas: a cor favorita, os filmes que viu no netflix, as músicas no spotify, a meia dúzia de livros que consegue ler em um par de anos, onde cresceu, onde vive agora, onde estudou, como se afirma em sua classe social, se comem ou dispensam o couvert.

A relação pautada na falta de interesse se permeia nos meios blasé que sociedade fundou para essa comodidade. A afinidade entre duas pessoas e o grau de compatibilidade de suas almas podem ser tranquilamente definidos por frases de efeito em algum status de uma rede social ou testes do buzzfeed, seguidos por trocas de likes, coraçõeszinhos, compartilhamentos. O contato diário restringe-se a meia dúzia de mensagens, onde o “tudo bem?” deve ser respondido com um “tudo bem! e você?” para o jogo seguir sem maiores complicações.

Nunca fui boa em jogos.

O superficial interesse em que se baseiam relações de anos entre amigos e amantes nunca me saciou – não sei se sacia a alguém ou se as simplesmente se conformam com o fútil por pura comodidade.

Ter proximidade com outro ser humano, tão ou mais complexo do que o que eu sou em minha existência, e poder entender como funciona uma parte da sua mente, seu modo de viver a vida, sua história, é excitante demais para mim a ponto de eu não fazer questão de me freiar. Eu quero espiar dentro da alma como uma criança enxerida para descobrir o que se esconde por de trás daquela história contada só pela metade, das inseguranças com corpo, da voz estranha ao telefone. Vou querer saber onde doí e por que doí. Vou querer saber como acontece a felicidade e por que disso. Vou banhar a ponta dos pés, vez ou outra na outra pessoa. Mergulhar um tanto e logo emergir.

Descobri que todos que fazem algo para alguém, esperam de alguma maneira que a outra pessoa faça o mesmo para ela – isso é um ciclo multi-lateral constante, seja de coisas boas ou ruins. Foi conhecendo assim as pessoas que descobri que existe um limite muito frágil e raso nessas descobertas.

Mostrar-se profundamente, revelar o quão os medos que possuí o prendem, o motivo de possuir esses medos, seus traumas, seus demônios pessoais, as fraquezas, as covardias assumidas e não assumidas, as vergonhas, os erros, as carências, as mágoas mais duras e ingratas: Isso não se mostra. Não por falta de confiança em si ou noutro, mas porque mostrar essas feiuras obriga o outro a encarar as próprias feiuras também.

Eu quero saber das pessoas e me mostro um tanto também, elas pedindo ou não. De relance, mostro o lado mais escuro que existe em mim, que não é mais obscuro do que o de ninguém – mas que é o suficiente para assustar quem quer que seja que eu me relacione. Ninguém se interessa pelo demônio dos outros, porque não se interessam pelos próprios problemas o suficiente para resolvê-los, ou o suficiente para dar uma boa olhada para eles.

Olhar para o que existe de horrível dentro da outra pessoa obriga, de alguma maneira, a olhar para o que de horrível existe dentro de si.

Quando assustadas as pessoas voltam a se prender ao superficial e nunca se aprofundam, nunca se importam verdadeiramente com o turbilhão de coisas que se passam dentro do outro, com nada que o aflige e que o liberta. A relação se restringe ao tudo-bem-tudo-bem, ao banal, a carne que não quer ver a alma.

É mais fácil se despir das roupas e fazer sexo com alguém do que compartilhar os medos e do que encarar os medos dessa mesma pessoa sem fugir. É preciso uma boa dose de amor para conseguir olhar para a escuridão do outro, lidar com ela – lidar, não resolver –, e com isso olhar de maneira forçosa para a própria e ter coragem, ao menos, de encará-la por algum tempo sem surtar.

Eu nunca conheci alguém que verdadeiramente se importasse com a minha vida, com o que se passa dentro de mim, que estivesse disposto a realmente me escutar e enxergar o quão obscuro aquele pedaço da minha alma pode ser sem arredar o pé como uma criancinha assustada com medo do escuro. A intimidade sempre teve um limite estreito com as pessoas que eu topei pelo meu caminho.

Do mesmo modo que viver em sofrimento por um período de tempo consegue modificar qualquer um de maneira mais intensa e poderosa do que a proporcional felicidade, enxergar de maneira interessada quem está por de trás do sorriso, das conversas leves e tolas, da noite mal dormida, dos gritos de estresse e raiva, é algo mais forte e avassalador do que conviver anos de mudo desinteresse por pura covardia.

Mas o que eu sei da vida? Sou apenas uma jovem mulher desconfiada, sozinha e amarga que entendeu Sócrates de uma maneira bem ruim e está de conversinha para seu lado com essa versão geração Y de “só sei que nada sei”.

Ilustração por agnes-cecilie

O Primeiro

O álcool ainda circulava pelas minhas veias quando acordei. Ele, ao meu lado, largado entre o chão e o cobertor arrastado do quarto até chegar ao tapete puído da sala. A penumbra da manhã iluminava fracamente os móveis, as paredes e nós – cúmplices dos próprios atos.

Na minha boca sentia ainda o gosto da pele dele, impura.

Os olhos foram na direção do relógio, nada mais que alguns borrões. Seis, não deveria passar das sete da manhã, disso eu tinha certeza. Meu corpo gritava por descanso, não parecia ter dormido nem mesmo cinco minutos. A mente estava fadigada, a carne exaurida. Contudo, existia uma satisfação que me fazia permanecer de olhos abertos, talvez mero efeito retardado da endorfina.

Ele se mexeu e não acordou. Era daquela visão que precisava, do meu homem nu e mal coberto para me sentir mulher, mais forte do que ele, que aparentava tão frágil dormindo. Não era e isso o fazia vencer mesmo inconsciente. Eu era a causa dele estar cansado. Quem causara os gemidos dele fora eu e ele era meu naquele instante. Egoísta, possessiva, obsessiva – tudo, porém, em vão. Ele nunca seria meu.

Precisava de um banho e de alguma decência. O cheiro dele impregnado em mim estava bom, mas havia o da vodka e do vinho de toda a madrugada. Levantei. A parte do cobertor caiu aos meus pés. Não me importei ao andar nua, muito menos ao ver minha imagem refletida no vidro da televisão desligada. Atravessei o curto espaço da sala, esmagando restos de cigarros e pisando sobre cartas de baralho. Os passos foram vacilantes no corredor para chegar ao banheiro.

Quando se está podre e de porre, a água quente caindo nas costas torna-se uma benção. Caía sobre a minha cabeça e escorria, levando não só a bebida como também a insanidade e tudo dele que restou em mim.

A calcinha estava na cozinha, a saia no quarto, ao lado da meia-calça e das botas. Sutiã no corredor. Não queria pensar onde estaria minha camiseta até voltar para a sala. Ele estava acordado, vestindo somente a calça e segurando minha roupa nas mãos, mirando-me. Um cigarro pendia, apagado, na boca dele. Nada disse. Jogou a blusa ao passar por mim, indo na direção do quarto dele e fechando a porta.

Vesti-me. Dobrei o cobertor. Recolhi as garrafas de bebidas. Levei os copos para a cozinha. Guardei o baralho na caixa e depois o deixei numa das gavetas da estante. Abri as janelas. Me senti vazia. Então o cheiro do cigarro me alcançou.

– Não precisa arrumar minha casa. – A voz dele saiu fria.

Não me virei de imediato. Verifiquei primeiro se aquele solitário vaso de plantas da sacada precisava de água.

– Eu sei que não preciso – respondi assim que me distanciei da janela.

Silêncio.

– Por que está fazendo? – questionou, soltando a fumaça do cigarro pelos lábios.

Não respondi.

Ele me impediu de passar pelo corredor para ir a cozinha, pegar água para a planta. Olhei-o. Estava completamente vestido, penteado, limpo. Me senti suja com o seu olhar.

– Faço, porque quero – disse, passando por ele para alcançar a cozinha.

Quando a água da torneira encheu o copo, ele já não estava mais no corredor. Não estava na sala. Reguei a planta. Arrumei o tapete. Lavei a louça suja. Deixei o café preto pronto sobre a mesa.

Ele não apareceu à porta da cozinha, no entanto, eu tinha aquela estranha e constante sensação de que ele estava me observando, de longe, de um lugar que não pudesse vê-lo.

Um frio repentino correu meus braços. Nunca fora um nós. Em todo esse tempo, eu estava sozinha.

Voltei para a sala, apanhei minhas chaves sobre a mesinha de centro. Mais uma vez o cheiro do cigarro tomou conta de mim. Não o olhei. Não queria vê-lo.

– Para onde vai?

Caminhei até a porta, sem desviar-me em nenhum instante para ele.

– Aonde vai?

A chave entrou na fechadura, mas não girou. O braço dele puxou, com violência, virando e me jogando contra a porta. Os olhos gélidos perfurando os meus, a mão impedindo-me com força a cada movimento de resistência. Tragou e exalou fumaça. O cigarro pendeu nos dedos quando ele se inclinou.

Os lábios dele tocaram os meus. Arruinava-me. Tudo nele doía e eu morria todas as vezes que me tocava. Era amargo. Sentia a mão apertando minha nuca quando ele forçou o beijo, possessivo, necessitado. Tranquei meus olhos. A praga sufocante que me puxava e me prendia. Meus braços o envolveram. Sentia carinho, sentia amor, mas não encontrava nenhuma coisa nem outra nele. O corpo dele colou ao meu. Um caminho de pequenos beijos foi traçado findando por morder e sugar a carne do meu pescoço. Abri os olhos.

No jogo que ele traçara eu era menos que um peão, a peça a ser manipulada a cada rolar de dados.

Cambaleou quando eu o empurrei. Fitou-me e os olhos se estreitaram. Ele vira diante dele, então, aquela que nunca havia reparado; jamais quisera. Os olhos dele tornaram-se vazios, o cigarro voltou à boca e permaneceu a encarar. Virei-me e destranquei a porta. O vi de relance ao sair do apartamento, antes de fechar a porta.

Não morreria nele outra vez.

Vamos falar sobre beijos

Tenho que concordar com Bukowski: Beijar é mais íntimo que trepar. Sempre achei o sexo um ato muito individual. Estão ali, pelo menos duas pessoas trepando, cada qual com seu ritmo, sentindo tudo o que fazem juntos de maneiras diferentes. Quando gozam, cada qual tem seu prazer. Você não pode fazer nada além de presenciar a fisionomia, o contorcer do corpo e os sons que deixam a boca. Não pode compartilhar do espasmo, da moleza do corpo, do arrepio e nada ali te conta muito além do evidente.

Não importa quão estranha é uma transa, o quão ruim o outro é em lhe agradar. Dá-se um jeito de alguém sentir prazer em algum momento. Um beijo estranho pode ser repetido quantas vezes quiser e continuará estranho. Não existe “dar um jeito” pra ficar bom. É aquilo. Os lábios parecem não seguir o mesmo compasso, a boca gira para o lado de um jeito engraçado, tem baba de mais, língua de menos.

Conheci um cara que dizia que o beijo tem que ter encaixe. Ele estava certo. O beijo pode não ser de um todo ruim, mas é como se faltasse algo que você não sabe definir com precisão o que diabos seria. É como se teu corpo te alertasse que com aquela boca não vai rolar nada de mais. O relacionamento fica fadado a meia-dúzia de beijos e umas trepadas, se tiver qualquer sorte – talvez mais trepadas que beijos, varia da falta de compromisso de cada um.

Qualquer tipo médio ocidentalizado e sem grandes restrições de qualquer natureza tem a chance de beijar uma grande soma de pessoas na vida. A loteria é encontrar um beijo que encaixe. Existe toda aquela verídica conversinha de que um beijo de bosta pra mim pode ser um puta tesão para alguém. Mas a real é que você vai achar mais beijos que faltam sei-lá-o-que do que algum que te satisfaça, te encha de tesão e seja mais fluído do que se você tivesse dando uns amassos numa cópia sua. Ciência? Empirismo sem finalidade acadêmica.

Os lábios se abrem, as línguas se tocam e o beijo acontece. Não é uma dança exata, mas é bom e subitamente você realiza que não falta nada. Pensa nos outros beijos. Eram bons, só que não era o que você queria. Esse é bom e é o que você queria, mesmo sem fazer ideia de que precisava. Não que seja manjado. Beijar é uma dança que ninguém decora os passos, apenas acontece. Saliva, dentes, língua, toque: tudo se mistura, tudo te dá tesão, tudo é surpreendentemente natural, gostoso. Pode ser cheio de carinho. Pode ser cheio de desejo. Pode te falar de tristezas, de como a vida tem sido difícil. Pode simplesmente aquietar um turbilhão de inseguranças ou acendê-las e dizer que é aquele o beijo, são aqueles os lábios que você quer.

Não é meramente trepar. É a intimidade de compartilhar todo seu sentimento com alguém com o toque da sua boca.