O Primeiro

O álcool ainda circulava pelas minhas veias quando acordei. Ele, ao meu lado, largado entre o chão e o cobertor arrastado do quarto até chegar ao tapete puído da sala. A penumbra da manhã iluminava fracamente os móveis, as paredes e nós – cúmplices dos próprios atos.

Na minha boca sentia ainda o gosto da pele dele, impura.

Os olhos foram na direção do relógio, nada mais que alguns borrões. Seis, não deveria passar das sete da manhã, disso eu tinha certeza. Meu corpo gritava por descanso, não parecia ter dormido nem mesmo cinco minutos. A mente estava fadigada, a carne exaurida. Contudo, existia uma satisfação que me fazia permanecer de olhos abertos, talvez mero efeito retardado da endorfina.

Ele se mexeu e não acordou. Era daquela visão que precisava, do meu homem nu e mal coberto para me sentir mulher, mais forte do que ele, que aparentava tão frágil dormindo. Não era e isso o fazia vencer mesmo inconsciente. Eu era a causa dele estar cansado. Quem causara os gemidos dele fora eu e ele era meu naquele instante. Egoísta, possessiva, obsessiva – tudo, porém, em vão. Ele nunca seria meu.

Precisava de um banho e de alguma decência. O cheiro dele impregnado em mim estava bom, mas havia o da vodka e do vinho de toda a madrugada. Levantei. A parte do cobertor caiu aos meus pés. Não me importei ao andar nua, muito menos ao ver minha imagem refletida no vidro da televisão desligada. Atravessei o curto espaço da sala, esmagando restos de cigarros e pisando sobre cartas de baralho. Os passos foram vacilantes no corredor para chegar ao banheiro.

Quando se está podre e de porre, a água quente caindo nas costas torna-se uma benção. Caía sobre a minha cabeça e escorria, levando não só a bebida como também a insanidade e tudo dele que restou em mim.

A calcinha estava na cozinha, a saia no quarto, ao lado da meia-calça e das botas. Sutiã no corredor. Não queria pensar onde estaria minha camiseta até voltar para a sala. Ele estava acordado, vestindo somente a calça e segurando minha roupa nas mãos, mirando-me. Um cigarro pendia, apagado, na boca dele. Nada disse. Jogou a blusa ao passar por mim, indo na direção do quarto dele e fechando a porta.

Vesti-me. Dobrei o cobertor. Recolhi as garrafas de bebidas. Levei os copos para a cozinha. Guardei o baralho na caixa e depois o deixei numa das gavetas da estante. Abri as janelas. Me senti vazia. Então o cheiro do cigarro me alcançou.

– Não precisa arrumar minha casa. – A voz dele saiu fria.

Não me virei de imediato. Verifiquei primeiro se aquele solitário vaso de plantas da sacada precisava de água.

– Eu sei que não preciso – respondi assim que me distanciei da janela.

Silêncio.

– Por que está fazendo? – questionou, soltando a fumaça do cigarro pelos lábios.

Não respondi.

Ele me impediu de passar pelo corredor para ir a cozinha, pegar água para a planta. Olhei-o. Estava completamente vestido, penteado, limpo. Me senti suja com o seu olhar.

– Faço, porque quero – disse, passando por ele para alcançar a cozinha.

Quando a água da torneira encheu o copo, ele já não estava mais no corredor. Não estava na sala. Reguei a planta. Arrumei o tapete. Lavei a louça suja. Deixei o café preto pronto sobre a mesa.

Ele não apareceu à porta da cozinha, no entanto, eu tinha aquela estranha e constante sensação de que ele estava me observando, de longe, de um lugar que não pudesse vê-lo.

Um frio repentino correu meus braços. Nunca fora um nós. Em todo esse tempo, eu estava sozinha.

Voltei para a sala, apanhei minhas chaves sobre a mesinha de centro. Mais uma vez o cheiro do cigarro tomou conta de mim. Não o olhei. Não queria vê-lo.

– Para onde vai?

Caminhei até a porta, sem desviar-me em nenhum instante para ele.

– Aonde vai?

A chave entrou na fechadura, mas não girou. O braço dele puxou, com violência, virando e me jogando contra a porta. Os olhos gélidos perfurando os meus, a mão impedindo-me com força a cada movimento de resistência. Tragou e exalou fumaça. O cigarro pendeu nos dedos quando ele se inclinou.

Os lábios dele tocaram os meus. Arruinava-me. Tudo nele doía e eu morria todas as vezes que me tocava. Era amargo. Sentia a mão apertando minha nuca quando ele forçou o beijo, possessivo, necessitado. Tranquei meus olhos. A praga sufocante que me puxava e me prendia. Meus braços o envolveram. Sentia carinho, sentia amor, mas não encontrava nenhuma coisa nem outra nele. O corpo dele colou ao meu. Um caminho de pequenos beijos foi traçado findando por morder e sugar a carne do meu pescoço. Abri os olhos.

No jogo que ele traçara eu era menos que um peão, a peça a ser manipulada a cada rolar de dados.

Cambaleou quando eu o empurrei. Fitou-me e os olhos se estreitaram. Ele vira diante dele, então, aquela que nunca havia reparado; jamais quisera. Os olhos dele tornaram-se vazios, o cigarro voltou à boca e permaneceu a encarar. Virei-me e destranquei a porta. O vi de relance ao sair do apartamento, antes de fechar a porta.

Não morreria nele outra vez.